
Dia do Médico: entre a gratidão e a perseguição
Julio Braga
Aline Sandes
O Dia do Médico, comemorado em 18 de outubro, é uma oportunidade para celebrar o grande trabalho realizado por esses profissionais na sociedade. Mas também precisa ser um momento de reflexão sobre a realidade imposta a quase 700 mil médicos que, apesar do prestígio retratado em diversas pesquisas de opinião pública, convivem com salários atrasados, vínculos precários, jornadas exaustivas e dificuldades para encontrar oportunidades de trabalho.
A medicina é uma profissão que exige anos de dedicação, investimento financeiro, atualização permanente e compromisso com o próximo. Por trás de cada atendimento, existe uma trajetória de formação, renúncias e a necessidade frequente de assumir decisões repletas de responsabilidade. E a população reconhece isso.
O que acaba por ser incompatível com esse prestígio perante grande parte da população é que parte dos eleitores esquece da importância dessa profissão e vota em políticos que destratam, desvalorizam e perseguem médicos e suas entidades representativas. Nos pequenos municípios isso fica muito evidente, e o gestor é um pouco mais sutil ao destratar a categoria médica como um todo, pois isso pode se refletir em perda de votos. Mas, a nível estadual e federal, os políticos parecem não ter escrúpulos na forma de tratar a categoria.
Na Bahia, onde 90% da população depende exclusivamente do SUS, os atrasos de pagamentos, o descumprimento de obrigações contratuais e falta de diálogo com as entidades médicas representam uma prática permanente. A população sofre consequências da desorganização dos serviços de saúde e da dificuldade de fixar profissionais em determinadas unidades. Apesar disso o governador foi reeleito.
No Brasil, há menos atrasos porque não há contratações estáveis há muitos anos. Programas que previam concurso público e carreiras mais estáveis no SUS, como o Médicos Pelo Brasil, foram substituídos pelo atual governo por programas paliativos, com contratos temporários, como o Mais Médicos e o Mais Especialistas. São formas de fazer contratações em que os médicos não têm perspectivas de carreira a longo prazo, mas tornam-se submissos para terem renovações de seus contratos.
O governo também aceitou e incentivou o crescimento irresponsável do número de cursos de medicina. Embora muitos cursos tenham sido autorizados judicialmente, com a chancela do STF, o MEC se omitiu ao não fiscalizá-los adequadamente. Além disso, financiou através do FIES a maioria dos cursos privados. No início de 2026, o FIES registrava 84 mil contratos para cursos de Medicina com valores de financiamento de até R$ 13 mil por mês, mas o total não é divulgado. Por fim, não aceitou a realização de um exame independente dos recém-formados, antes de entrarem no mercado de trabalho. Trabalhou contra o projeto de lei (PL) apoiado maciçamente pela população que tenta instituir o exame de Proficiência pelo CFM.
Os poucos médicos contratados diretamente pelo Governo Federal também sofreram uma discriminação absurda em 2026.
Em outras situações envolvendo o Governo Federal, os reveses contra médicos se repetem. No Senado Federal, um senador baiano, líder do Governo, barrou a tramitação e passagem para a Câmara dos Deputados do PL que atualizaria, depois de 65 anos, o Piso Salarial de Médicos. O Ministro Alexandre de Moraes do STF, com apoio do Ministério da Saúde e Advocacia Geral da União (AGU), desrespeitou a competência do CFM e suspendeu a Resolução CFM nº 2.378/2024 que proibia médicos de matar bebês entre o sexto e nono mês gestacionais.
O Sindimed-BA tem atuado na defesa dos médicos nas frentes administrativas, judiciais e políticas. Na frente política, não fazemos política partidária, mas utilizamos o importante papel da imprensa para pedir aos eleitores que apoiem nossas pautas. A nível municipal, estadual e federal a gratidão da população tem de ser traduzida pelo fim da perseguição. Respeitar os médicos é o caminho para uma assistência à saúde de qualidade no SUS.
Julio Braga é presidente e Aline Sandes é diretora de Comunicação do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia.




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